A Religião e as Eleições 2026
Eleições 2026: como a religião influencia a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
InterativaInfo | Política | 21 de outubro de 2026
A religião voltou a ocupar espaço importante no debate eleitoral brasileiro. Na disputa do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), as pesquisas mostram diferenças expressivas nas preferências de católicos e evangélicos. Ao mesmo tempo, lideranças religiosas e instituições de diferentes tradições defendem posições variadas, desde o apoio público a candidatos até a liberdade individual de escolha.
Mas até que ponto a religião pode influenciar o resultado das eleições? E é possível estimar quem vencerá considerando o número de eleitores de cada segmento religioso?
O que dizem as pesquisas mais recentes?
Um levantamento do instituto Meio/Ideia, divulgado em 21 de outubro, mostra uma divisão significativa entre os dois maiores grupos religiosos pesquisados.

O levantamento ouviu 1.500 pessoas por telefone, entre os dias 15 e 19 de outubro, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais para o conjunto da amostra e nível de confiança de 95%. Os resultados por religião representam recortes da pesquisa e devem ser interpretados com cautela. – CNN Brasil
Legenda das barras: azul = Lula; laranja = Flávio Bolsonaro. Os percentuais restantes correspondem a outras respostas, votos brancos ou nulos e entrevistados que não souberam responder.
O levantamento ouviu 1.500 pessoas por telefone, entre os dias 15 e 19 de outubro, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais para o conjunto da amostra e nível de confiança de 95%. Os resultados por religião representam recortes da pesquisa e devem ser interpretados com cautela. – CNN Brasil
1. O segmento evangélico
Entre os evangélicos entrevistados pela Meio/Ideia, Flávio Bolsonaro aparece com 69,6% das intenções de voto, enquanto Lula registra 25,9%. O resultado aponta uma vantagem expressiva do candidato do PL nesse segmento específico. – CNN Brasil
Entretanto, os evangélicos não formam um grupo politicamente homogêneo. Existem diferenças entre denominações, igrejas, lideranças e fiéis. Enquanto alguns pastores manifestam apoio público a candidatos, outros preferem não indicar nomes ou defendem que cada pessoa decida de acordo com sua consciência.
Entre as lideranças que já foram associadas publicamente ao campo conservador estão Silas Malafaia e representantes de diferentes denominações evangélicas. Esse posicionamento, porém, não significa que todos os membros de suas igrejas votem da mesma maneira.
A orientação de um líder religioso pode influenciar parte da comunidade, mas não determina automaticamente o voto individual.
2. O segmento católico
Entre os católicos ouvidos pela mesma pesquisa, Lula aparece com 55% das intenções de voto, contra 39,6% de Flávio Bolsonaro. O cenário é, portanto, inverso ao observado entre os evangélicos. – CNN Brasil
A Igreja Católica brasileira reúne fiéis com diferentes posições políticas, sociais e econômicas. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não deve ser confundida com uma organização que determina o voto dos católicos em um candidato específico.
Bispos, padres e outras lideranças podem se manifestar sobre democracia, justiça social, pobreza, direitos humanos e políticas públicas. Essas manifestações não equivalem necessariamente a um endosso eleitoral.
Assim, mesmo que Lula apareça numericamente à frente entre os católicos nessa pesquisa, não é correto concluir que todos os católicos apoiam o presidente ou que a Igreja Católica, como instituição, tenha escolhido um candidato.
3. Umbanda e Candomblé
As religiões de matriz africana também participam do debate público, especialmente em temas como liberdade religiosa, combate à intolerância, igualdade racial e proteção das comunidades tradicionais.
Algumas lideranças e coletivos ligados à Umbanda e ao Candomblé manifestam posições políticas, enquanto outros priorizam a defesa dos direitos de suas comunidades sem recomendar um voto específico.
É importante observar que os resultados eleitorais desse segmento podem variar entre pesquisas, conforme o tamanho da amostra e a metodologia utilizada. Não seria adequado usar um único levantamento para afirmar que todos os praticantes dessas religiões apoiam determinado candidato.
O mesmo princípio vale para qualquer tradição religiosa: a opinião de uma liderança não representa necessariamente todos os seus seguidores.
4. Espiritismo: liberdade de consciência e escolha
No movimento espírita, há instituições e grupos que destacam a importância da liberdade de consciência e da responsabilidade individual. Isso não significa que todos os espíritas compartilhem a mesma preferência política.
O posicionamento institucional de uma federação ou associação também não deve ser confundido com a opinião particular de seus integrantes.
Na análise eleitoral, é importante distinguir três situações: uma instituição que não recomenda candidatos, uma liderança que declara seu apoio pessoal e um grupo organizado que divulga uma posição política. São situações diferentes e não devem ser apresentadas como equivalentes.
5. E os ateus e as pessoas sem religião?
Ateus, agnósticos e pessoas sem religião também fazem parte do eleitorado e podem apresentar preferências políticas distintas.
Como não possuem necessariamente uma liderança religiosa de referência, não faz sentido atribuir a esses eleitores uma orientação coletiva baseada em uma instituição religiosa.
Além disso, pessoas sem religião não constituem um bloco eleitoral uniforme. Suas escolhas podem estar relacionadas a fatores econômicos, sociais, culturais, familiares e ideológicos, entre outros.
6. Quem está deixando os fiéis livres para votar?
Para esta análise, consideramos como favoráveis à liberdade de escolha as lideranças e instituições que não impõem um candidato nem apresentam uma orientação eleitoral obrigatória aos seus seguidores.
Essa postura não significa neutralidade em todos os assuntos públicos. Uma instituição pode se manifestar sobre democracia, direitos humanos ou questões sociais sem recomendar voto em Lula ou Flávio Bolsonaro.
Também é necessário distinguir a liberdade de escolha defendida oficialmente de eventuais manifestações individuais de pastores, padres, bispos, dirigentes ou representantes religiosos.
O voto é uma decisão pessoal e secreta. Mesmo quando uma liderança declara apoio a um candidato, cada eleitor tem o direito de avaliar propostas, histórico, comportamento público e consequências das políticas defendidas.
7. Considerando o número de eleitores de cada religião, quem pode vencer?
Para responder a essa pergunta, não basta observar qual candidato lidera dentro de cada grupo religioso. É necessário considerar também o peso de cada segmento no eleitorado, a participação eleitoral, as preferências dos eleitores sem religião e de outras tradições, além dos votos brancos, nulos e indecisos.
A pesquisa Meio/Ideia divulgada em 21 de outubro aponta, no conjunto do eleitorado, 48% para Flávio Bolsonaro e 46% para Lula nas intenções de voto totais. Considerando apenas os votos válidos, os percentuais são de 51,1% para Flávio e 48,9% para Lula. A diferença está dentro da margem de erro de 2,5 pontos percentuais, caracterizando empate técnico. – UOL Notícias
Outro levantamento divulgado na mesma data, da Quaest, mostra 45% para Flávio e 44% para Lula, também dentro da margem de erro da pesquisa. Os números reforçam a necessidade de cautela ao apontar um vencedor antes da votação. – UOL Notícias
Minha avaliação: Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente em alguns levantamentos nacionais recentes, enquanto Lula demonstra força entre os católicos e em outros segmentos do eleitorado. O cenário permanece apertado, e as pesquisas não permitem garantir quem vencerá.
Para calcular uma projeção eleitoral baseada especificamente na religião, seria necessário utilizar dados compatíveis sobre o tamanho de cada segmento e sua intenção de voto, de preferência provenientes da mesma pesquisa. Misturar percentuais de levantamentos diferentes pode produzir uma estimativa enganosa.
8. Religião e democracia: o voto pertence ao cidadão
A religião pode influenciar valores, opiniões e escolhas políticas, mas não deve ser tratada como um mecanismo capaz de determinar o voto de milhões de pessoas.
O respeito à diversidade religiosa inclui reconhecer que pessoas da mesma igreja, comunidade ou tradição podem ter opiniões políticas diferentes. A liberdade de consciência também envolve o direito de discordar de uma liderança religiosa sem perder o respeito ou o vínculo com sua comunidade.
Na democracia, o debate eleitoral deve considerar propostas, resultados, compromissos públicos e a capacidade dos candidatos de responder aos problemas da população.
Mais importante do que tentar prever o comportamento de cada religião é garantir que todos possam participar da eleição de maneira livre, informada e consciente.
Conclusão
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro evidencia diferenças relevantes nas preferências eleitorais de católicos e evangélicos. Entretanto, esses dados representam tendências observadas em pesquisas, não decisões coletivas de instituições religiosas nem garantias sobre o resultado final.
Flávio aparece à frente em alguns levantamentos nacionais, mas a diferença em relação a Lula permanece dentro da margem de erro. O resultado dependerá do conjunto do eleitorado e das escolhas individuais feitas nas urnas.
A mensagem central é simples: nenhuma religião vota como uma única pessoa. Cada cidadão tem sua consciência, suas convicções e o direito de escolher livremente seu representante.
Fontes de consulta:
CNN Brasil — intenção de voto por religião;
UOL / Agência Estado — pesquisa Meio/Ideia;
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